"Lá em casa é assim: tem minha mulher e meus dois filhos, de 1 ano e meio. Gasto muito dinheiro com eles. Frutas, painhas, fraldas, biscoitos, laticínios de várias cores e sabores, produtos de higiene e de limpeza em quantidades industriais, roupinhas e calçados que duram poucas semanas. Também gasto um pouquinho comigo, confesso. Tênis, camisetas e livros, basicamente. Pago impostos pra dedéu. O Brasil me brinda com quase 80 taxas. A carga tributária brasileira, que bateu em inacreditáveis 39,69% do PIB em 2006, é um acinte. Significa que os cofres públicos devoram quase R$4 de cada R$10 que circulam pelo país. Tenho certeza de que, com tudo isso, sustento um estafeta de repartição em alguma estatal deficitária por aí. Ou, quem sabe, uma ascensorista num prédio público de três andares no centro depreciado de uma cidade desimportante qualquer. Assim como aquelas pessoas que adotam uma criança de modo remoto por meio de uma instituição benemerente e um dia viajam para conhecer seu afilhado, pretendo um dia pegar um avião e visitar esses barnabés que mamam em minha teta. Mal concluo a lista de mordidas que tomo no país e do país para sustentar minha família como acho que devo e já percebo que sustento uma segunda família. Tenho uma babá. Ela é viúva e tem quatro filhos, a mais velha com 16 anos, o mais novo com 6. A única fonte de renda dela - que será avó dentro de alguns meses - para sustentar sua família, incluindo essa nova boca, é o salário que pago a ela, que é uma parte de meu salário! Ainda estupefato com minha inusitada (para mim) e não reconhecida (pelo governo) relevância econômica para a nação, com minha involuntária contribuição para a distribuição de renda - a minha renda! - no país, me dou conta de que sustento uma terceira família: a de nossa diarista. Ela não tem filhos. Mas sua renda familiar é o que lhe pago, outro naco de minha renda familiar. Esta história, é claro, não é só minha. É sua também. Funciona assim: se você não tem nada, o governo não ajuda. Quando você começa a ganhar um pouquinho, o governo cola em você, com um sorriso de político no rosto e uma pistola de bandido empunhada contra sua cintura. Milhares de famílias brasileiras são sustentadas por outros milhares de famílias brasileiras - as mesmas que também sustentam o governo. E a si mesmas, se conseguirem, se sobrar um troco. Na prática, o poder público estatiza as receitas que puder aferir junto a você. E privatiza por decreto parte substancial do ônus da pobreza vigente do país, derramando sobre seu ombro um quinhão de compatriotas carentes a sustentar."
Adriano Silva (Época, 17/06/07)
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