quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Um prédio muito pequeno para nós quatro

Aninha tinha dois amiguinhos no seu prédio, Plínio e Verinha. Eles costumavam descer até o pátio para brincar de corda. E eram bons, pelo menos comparados a eles mesmos. Nunca brincavam com mais ninguém, ignoravam completamente a existência de outras crianças. Escutavam todo aquele barulho na rua, mas ignoravam. Pulavam corda o dia todo, até os joelhos doerem. Uma semana inteira andando engraçado, com as pernas meio flexionadas, coluna dobrada. A mãe de Aninha dizia que isso não era bom, ela ficaria com má postura, feia. "Além do mais, há outras brincadeiras no mundo, filha". Ela desconsiderava completamente. Seus amigos brincavam disso, ela tinha que fazer o mesmo. Era como os outros dois pensavam. Até gostariam de tentar mais coisas, mas um forçava o outro inconscientemente a continuar na mesma atividade diária.

Numa semana de abril chegou uma menina nova no prédio. Seu nome era Rita e tinha longos cabelos loiros amarradinhos em um trança que caía em seu ombro. Carregava sempre consigo uma bolsa verde com vários kits de construção, adorava kits de construção. Aninha a achava muito estranha. "Que tipo de criança é essa? Loira? Tranças? Kits de construção? Em que mundo ela vive?" Passou a vigiar tudo que a menina fazia. Em casa, na portaria, estacionamento, todo lugar. Conhecendo seus gostos, os detalhes em suas brincadeiras, suas roupas e até seu jeito de andar e falar. Nas manhãs de domingo, os três amigos se reuniam perto da piscina e riam das esquisitices da menina nova. "Ela nem deve saber pular corda!" "Talvez a corda parada seja difícil demais pra ela, hahaha" Nesse ponto, todos eles já haviam esquecido sua brincadeira favorita. Ao voltar pra casa, todos os dias antes de dormir, brincavam com seus kits de construção novinhos. Eram muito ruins comparados a Rita, mas não conseguiam perceber isso. Uma frente de casinha e pronto, eram experts.

O que eles também não sabiam é que num desses dias Rita estava na área da churrasqueira escutando tudo. Tinha ido até lá para construir um chalé e uma capelinha embaixo do balcão da piscina, onde a chuva não alcançava. Terminado o projeto, começou a ler contos de terror deitadinha no chão, tomando suco de uva de uma garrafinha verde. Foi quando ouviu toda a história das crianças.

No dia seguinte, Rita começou com seu plano. Quietinha, deixaria pecinhas do kit de construção em todos os lugares que os três inimigos costumassem ir. Plínio encontrou um telhadinho vermelho na frente da sua porta. Desviou e esqueceu o fato. Ele iria ao zoológico com os pais mais tarde, tinha mais com o que se preocupar. Verinha encontrou o reloginho da torre perto da ducha da piscina. Com raiva, chutou o brinquedo pra longe e feriu o dedão. Aninha não encontrou o seu. Tropeçou numa chaminé na beira da escada e caiu. Acabou numa cadeira de rodas.

Todos eles ainda brincam com seus kits de construção e perseguem o quanto podem a "menina nova". Rita ignora as três crianças e brinca com seu kit, de corda, de comidinha, detetive, amarelinha...

3 comentários:

cammy disse...

Fui ficando com sono no meio. Preguicinha de escrever essa hora. Enfoin...

Alê disse...

Todos os Plínios morrem quando completam 13 anos, ou por acaso você já ouviu falar de algum "vovô Plínio" ou "tio Plínio"?

É o mesmo para Kauê.

Erick Vasconcelos disse...

:(